quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SONHO DE VERÃO

     

(imagem gerada por IA)

Esperei por ti ao fundo do caminho, entre a casa da encosta e o rio que passava célere e despreocupado, enquanto esperava, brincava com uma moeda fazendo-a escorrer por entre os dedos e depois atirando-a ao ar, cara ou coroa? Contava as vezes como se a minha vida dependesse disso, a minha outra mão estava no bolso das calças.

            Parei a moeda na palama da minha mão e observei todos os seus traços, as linhas marcadas no metal.

            A tua voz surgiu calma, como a leve brisa daquela manhã de verão, veio com o vento e nele a tua fragância a jasmim que me preenchia e fazia tremer cada musculo do meu corpo, estava tentado a sorrir, mas contive-me, mantive os olhos fixos na moeda de prata na minha mão, esperei por ti ali no fundo do carreiro.

            Chegaste e deste-me um beijo na face, sorrias, arrepiei-me e não consegui evitar escondê-lo, desta vez deixei o meu sorriso florir, virei-.me para ti, sorrias e o teu corpo estava envolto naquele aroma de jasmim, larguei a moeda no bolso, agarrei a tua mão e abracei-te com firmeza, com o medo que de alguma forma te pudesses esfumar ali perante mim naquela quente manhã de verão.

            Começaste a dançar à min há volta, enquanto cantavas e sorrias ao mesmo tempo, os meus pés criados como blocos de cimento não se moveram, mas a minha alma dançava contigo e tudo o que via era a luz dourada e o brilho do teu sorriso.

            Puxaste pela minha mão, sentaste-te e puxaste-me para baixo, sentei-me também ali naquela relva fresca, deitaste a cabeça no meu colo e continuaste a cantarolar, olhavas para mim sorridente e curiosa e as tuas pequenas risadas pareciam crianças felizes numa noite de Natal, excitante e inocente, baixei a cabeça e beijei-te a testa, as tua mãos acariciaram a minha face e corei, sorri e disse que era do calor, então sem muito mais a perder, baixei de novo a cabeça e beijei-te nos lábios, o teu aroma de jasmim penetrou em mim e o meu corpo deixou de ter dono, pertencia ao mundo, ao verão e à brisa matinal, pertencia ao teu sorriso e ao cais dos teus lábios, pertencia ao teu olhar, pertencia a tudo e a nada ao mesmo tempo, só a mim já não me pertencia.

            E fiquei ali de olhos fixos nos teus a deixar que o tempo de verão se esvaísse na ampulheta daquele dia, a água do rio corria calma e límpida, os pássaros e as borboletas brincavam entre as flores, não era mais eu, não era mais um corpo estranho, era uma essência que se tinha fundido noutra essência, a tua.

            A noite veio rápida e com ela, a hora das despedidas, mal tinha nascido o dia e agora caia a noite, afastei-me, não queria que sentisse a minha presença desvanecer-se, voando frágil para longe de ti, sorri, beijei-te a mão, fiz uma vénia e misturei-me no orvalho daquela noite de verão.

            Era de novo um fantasma, por entre as sombras daquele sonho de uma noite de verão.

 

Bruno Carvalho

Janeiro 2026

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

A PESTE



Olhos pequenos de cor indefinida

Miravam as sinistras palavras

“Velar as bombas e fugir à frente do Vento”

A Peste veio vagueando pelas vielas

Silenciosa e faminta fechando os pequenos olhos.

 

Os céus abriram-se em funesta tempestade

Pairando pelos telhados enegrecidos

Um fumo voraz gelou as palavras

Afogando-as nas gargantas de homens de fé.

 

Ergueu-se das ruínas a beleza do fim

Dama cortejada pelas legiões do Inferno

Amada e confidente da crueldade do Inverno

Imponente e implacável ave de rapina.

 

Passagens estreitas, negras e imundas

Desceu à terra a Peste vestida de fomes noturnas

Do veio de sangue desceu a ruína e a dor


E da imoral luxúria o escárnio do amor.

Bruno Carvalho

terça-feira, 9 de setembro de 2025

MOMENTO

 Nem a sombra da manhã fugindo

Nem o céu que derrama lágrimas angelicais

Nem a tarde que se faz fogo, furiosamente rugindo

Nem a noite que encerra medos irracionais.

 



Nada nem ninguém pode apagar a tua luz

Que brilha, explodindo num infinito mar de cores

E que ao meu peito tanto contentamento conduz

Como um jardim inundado de queridas flores.

 

Sorris e o mundo abre-se a mil maravilhas

Imagens de beleza e candura incomparáveis

Que são nossas, tuas e minhas

Trovas e pinturas para sempre incomparáveis.

 

Não vertem tristezas desta minha alma

Jorram sonhos, desejos, canções largadas ao vento

E por entre abraços carinho e beijos

Encontro o caminho rumo a ti, respondo ao chamamento.

 

E quero amar-te assim todos os dias do resto da minha vida

Sem receio pelas incertezas que traz o tempo

E quero ver-te assim quieta nos meus braços, de face erguida

Vou guardar a imortalidade de tão doce momento.

 

Bruno Carvalho

SONHO DE VERÃO

       (imagem gerada por IA) Esperei por ti ao fundo do caminho, entre a casa da encosta e o rio que passava célere e despreocupado, enquan...

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