Esperei por ti ao fundo do caminho, entre a casa da encosta e o rio que passava célere e despreocupado, enquanto esperava, brincava com uma moeda fazendo-a escorrer por entre os dedos e depois atirando-a ao ar, cara ou coroa? Contava as vezes como se a minha vida dependesse disso, a minha outra mão estava no bolso das calças.
Parei a moeda na palama da minha mão
e observei todos os seus traços, as linhas marcadas no metal.
A tua voz surgiu calma, como a leve
brisa daquela manhã de verão, veio com o vento e nele a tua fragância a jasmim
que me preenchia e fazia tremer cada musculo do meu corpo, estava tentado a
sorrir, mas contive-me, mantive os olhos fixos na moeda de prata na minha mão,
esperei por ti ali no fundo do carreiro.
Chegaste e deste-me um beijo na
face, sorrias, arrepiei-me e não consegui evitar escondê-lo, desta vez deixei o
meu sorriso florir, virei-.me para ti, sorrias e o teu corpo estava envolto
naquele aroma de jasmim, larguei a moeda no bolso, agarrei a tua mão e
abracei-te com firmeza, com o medo que de alguma forma te pudesses esfumar ali
perante mim naquela quente manhã de verão.
Começaste a dançar à min há volta,
enquanto cantavas e sorrias ao mesmo tempo, os meus pés criados como blocos de
cimento não se moveram, mas a minha alma dançava contigo e tudo o que via era a
luz dourada e o brilho do teu sorriso.
Puxaste pela minha mão, sentaste-te
e puxaste-me para baixo, sentei-me também ali naquela relva fresca, deitaste a
cabeça no meu colo e continuaste a cantarolar, olhavas para mim sorridente e
curiosa e as tuas pequenas risadas pareciam crianças felizes numa noite de
Natal, excitante e inocente, baixei a cabeça e beijei-te a testa, as tua mãos
acariciaram a minha face e corei, sorri e disse que era do calor, então sem
muito mais a perder, baixei de novo a cabeça e beijei-te nos lábios, o teu
aroma de jasmim penetrou em mim e o meu corpo deixou de ter dono, pertencia ao
mundo, ao verão e à brisa matinal, pertencia ao teu sorriso e ao cais dos teus
lábios, pertencia ao teu olhar, pertencia a tudo e a nada ao mesmo tempo, só a
mim já não me pertencia.
E fiquei ali de olhos fixos nos teus
a deixar que o tempo de verão se esvaísse na ampulheta daquele dia, a água do
rio corria calma e límpida, os pássaros e as borboletas brincavam entre as
flores, não era mais eu, não era mais um corpo estranho, era uma essência que
se tinha fundido noutra essência, a tua.
A noite veio rápida e com ela, a
hora das despedidas, mal tinha nascido o dia e agora caia a noite, afastei-me,
não queria que sentisse a minha presença desvanecer-se, voando frágil para
longe de ti, sorri, beijei-te a mão, fiz uma vénia e misturei-me no orvalho
daquela noite de verão.
Era de novo um fantasma, por entre
as sombras daquele sonho de uma noite de verão.
Bruno
Carvalho
Janeiro
2026




