segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

ESTAMOS DOENTES


 


            Estamos todos doentes.

            Adictos a pensamentos, criando histórias do nada, viciados em conceitos, criamos uma persona que é mera ilusão, alimentamos um ego que nos quer ver isolados e constantemente descontentes, com raiva e bastante ofendidos por tudo e por nada.

            Criamos uma identidade que pensa por alguma razão que é isolada, que existe por si, e ficamos cegos ao facto que somos a parte de um todo e não uma parte independente do nada.

            Estamos tão distraídos perdidos nessa teia infindável de histórias criadas a partir de pensamentos que nem reparamos na coisa que nos mantém vivos, a nossa respiração.

            Quem já meditou ou praticou mindfulness certamente teve a experiência de dirigir a atenção para a respiração, isto significa que fora da meditação estamos tão embrenhados na nossa versão ilusória da realidade que nos passa despercebido que respiramos o ar que vem de fora e expiramos ar que vem de dentro para fora, logo não existimos como seres independentes e isolados, somos parte do todo que é a consciência.

            Assim como conceptualizamos uma árvore não o fazemos tendo em mente que a mesma sem o solo, água e luz solar não pode ser uma árvore e não existe, mais uma prova de como estamos tão distraídos nos nossos conceitos e julgamentos que não percebemos que nada existe isoladamente, somos partes de um sistema bem maior.

            O nosso Ser verdadeiro é vazio, não existe, este vazio não é, no entanto, ausência de tudo, bem pelo contrário e é um dos mais belos paradoxos, não somos nada, mas somos tudo ao mesmo tempo, indistinguíveis do tecido da realidade, somos não dualistas, não existe observador e objeto, sujeito e verbo, são tudo conceitos para conseguirmos navegar no mundo, mas servem apenas para isso, não como identidade.

            Somos feitos de pequenos pedaços de ser que servem consoante o contexto em que nos encontramos no momento presente, somos familiares no contexto de família, trabalhadores no contexto económico, amigos no contexto social, e por aí fora, mas nada destes pequenos “ser” são quem somos. Nem o nome, nem o que temos, nem o que fizemos, nem o dizemos, nem as conquistas nem as derrotas.

            O ego mantém-nos reféns da nossa verdadeira natureza, e a ele agrada que estamos em constante sofrimento, fazemos uma violência a nós mesmos que é algo inconcebível como conseguimos sobreviver e viver desta forma.

            O ego gosta mesmo de se sentir ofendido e está sempre pronto a nos defendermos, por alguma razão temos de ter sempre um objetivo, temos sempre algo que precisa ser solucionado, parece que se nos permitirmos apenas a estar e a ser, sem qualquer julgamento ou sem tentar resolver nada ficamos perdidos e sem propósito.

            A vida acontece independentemente de nós, o mundo não é e nunca será como queremos que seja, quanto mais aceitarmos isso menos dói, andamos obcecados por atingir certos momentos altos, porque só o fazendo parecemos realizados, se eu estiver num estado x então finalmente serei feliz, quando recebemos um prémio por algo que nos esfolámos por fazer no momento seguinte estamos novamente descontentes e à procura de outro momento alto e por aí adiante, estamos adictos a momentos altos que nos trazem apenas insatisfação, ora não é isto que alguém adicto a uma substância faz? Busca incessante por momentos altos? Então somos mesmo isso adictos perdidos em pensamentos.

            Tentamos nos restruturar sem perceber que é um processo e nunca haverá um patamar final de reestruturação, somos um processo em constante evolução até à morte, à custa disso vivemos como fossemos imortais, mas tudo é impermanente, tudo está em movimento e em mudança, a pessoa que fui ontem não é a pessoa que sou hoje.

            Estejamos apenas abertos ao que já existe, não há necessidade de procurar nada mais, de acrescentar nada, não há nada de transcendental que precise ser encontrado, se achamos que já estamos iluminados é porque na realidade nem um pouco estamos.

            As coisas são como são e pronto, há pessoas que ficarão doentes outras não, há pessoa que serão ricas outras não, há pessoas que parecem ter sorte outras não, nenhum de nós é o centro do mundo, se o meu vizinho está doente certamente eu poderei ficar também, o mundo não se molda a mim, o ego adora achar que não tenho sorte nenhum e isto e aquilo, é tudo ruído mental sem qualquer utilidade.

            Somos como atores de teatro com um infinito número de papéis, criamos peças de teatro durante a vida toda, uns são comédias outras tragédias, nem sempre a vida é confortável e indolor, mas negar a existência da dor adormecendo com pensamentos o que é verdadeiro não nos fará mais felizes, é tudo ilusão menos a Consciência.

            Tiramos o nosso valor de conceitos, a nossa identidade, não somos nada, mas somos tudo se nos permitirmos a viver abertos ao que já existe.

 

Bruno Carvalho

Janeiro 2025

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

NÃO TEMOS TEMPO

 


Já tinha a minha certeza que isto de termos tempo era no seu cerne uma ilusão, mas a vida tem sempre o poder de nos dar novas lições sobre o assunto e nos abrir novas perspetivas.

            Se estamos à espera de um qualquer hipotético estado mental para sentirmos, para amarmos, para rirmos, para vivermos, certamente ficaremos eternamente descontentes e presos na contínua ilusão que num futuro completamente incerto e fora do nosso controlo, teremos tempo para fazer, e sentir, e ir.

            Os mil e um se, que nos surgem a toda a hora são armadilhas, mentiras que dizemos a nós próprios para nos conferir algum conforto, se eu tiver mais dinheiro então serei feliz, se eu curar todos os traumas então poderei amar finalmente, se eu for mais magro então sim posso ser aceite, se eu for mais saudável então sim serei feliz, mas a realidade e a verdade é inconsciente das nossas birras emocionais, tanto se e depois atingindo o tal objetivo que só existe na nossa cabeça, aí sim poderemos ser finalmente felizes e estaremos completos.

            Que pura burrice, que vãs fantasias que contamos a nós mesmos nas noites mal dormidas onde corremos toda a linha da nossa história até agora e nos arrependemos de não termos feito ou aquilo, sempre com a ilusão que teremos tempo para concertar e para agir de forma diferente, mas não temos.

            Tudo está fora do controlo, mas todos juramos a pés juntos que temos todo o controlo do mundo sobre a nossas mãos, podemos escolher o destino quando ele já está traçado e foi traçado durante todos os momentos até este presente.

            Dou por mim a pensar que poderia ter dito aquilo que sentia, em vários momentos, mas não disse porque pensava que precisava de estar num certo patamar emocional e físico para sentir, o medo de sentir sempre foi maior do que o medo de avançar, que louco fui, mas quando a doçura do sentimento de impermanência que paira sobre os meus ombros dá sinal, aí, aí não há mais tempo a perder.

            Sejamos honestos connosco mesmos, mesmo que não o sejamos com os outros, ser fiel ao que sentimos é o único compromisso que devemos ter, e abafarmos a vã vaidade da aura do ego que nos cega, certamente podemos dizer o que honestamente sentimos, por alguém, por uma situação, por um presente que está ao nosso alcance, mas que varremos para debaixo do tapete do futuro.

            Das minhas muitas lições de vida, mais uma vez depois de mias uma volta em redor do sol, mas uma lição, e esta sei eu que todas as vãs tentativas para acreditar que tinha tempo se varreram, e o que fica? Fica uma sensação de liberdade de poder dizer finalmente e honestamente para mim o que sinto, e não me interessa bem se o que sinto é de alguma forma retribuído ou não, interessa é eu viver agora, enquanto a tempestade não se torna tão difícil de navegar que me faça perder a felicidade de pode sentir sem nada que me adormeça tudo de bom e tudo de mau.

            Eu tenho em mim a honestidade e a clareza de saber o que sinto, por isso que eu ame sem medo, pois o medo foi o que me colocou aqui à beira deste precipício, não que vá saltar, mas não fugirei da brisa que me banha o rosto e que me varre as lágrimas de contentamento.

            Podemos esconder-nos e ter mil uma racionalização ou podemos deixar ir tudo, desapego total, morte do ego, e deixar fluir, deixar que o amor flua conforme é suposto fluir, livremente monte abaixo como um riacho que alegremente percorre a montanha rumo ao mar.

            Se formos honestos saberemos que nunca estaremos completamente reestruturados, pois atingimos um nível para depois perceber que afinal há mais dez acima e continuaremos descontentes.

            A felicidade é o processo e a viagem, nunca será o objetivo ou um ponto alto, nunca estará no fim da estrada, está no caminho, está nos passos que damos e nas pessoas que nos rodeiam, a solidão parece inebriante às vezes, mas tudo que é exagerado é mau, e por vezes escolher estar só é apenas mais uma fuga à realidade, como qualquer outra coisa banal que nos faz fugir.

            Não há tempo, não temos tempo.

 

Bruno Carvalho

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

CONSEQUÊNCIAS

     


        

       Todas as nossas decisões das quais somos sempre responsáveis, têm de consequências, sejam boas ou más, influenciem outros diretamente ou apenas a nós próprios, embora esta última hipótese acaba sempre por não ser apenas nós próprios.

            Mesmo aquelas decisões que tomamos inconscientes no possível bem ou mal, simples atos que fazemos inadvertidamente e sem pensar.

            Como lidar com as consequências? Bem esse é o ponto que como seres responsáveis temos de aprender a lidar e a tirar as ilações que mais que mais nos servem para o crescimento.

            Se tomo uma decisão errada por exemplo o modo como aceito as consequências tem dois modos, ou fico com o sentimento de culpa embrenhado em mim para a vida toda, mesmo que a vida toda seja apenas vinte e quatro horas ou reajo e retiro delas o positivo, uma oportunidade de crescimento uma lição para que da próxima vez possa fazer diferente.

            O mesmo acontece com uma boa decisão com consequências positivas, não devo de todo entrar em modo eufórico e embandeirar em arco o conseguido, mas colocar alguma razão e aperceber-me que a vida é mutável que o que hoje pode parecer uma vitória, amanhã poderá ter outro efeito e aquele prazer instantâneo desaparece, é preciso consolidar uma vitória e também aprender com ela.

            Como somos um coletivo de almas num Universo vasto e infindável, interligados e conscientes uns dos outros temos responsabilidade com essas outras almas ligadas a nós, se virmos isto de um ponto de vista espiritual, conectando ao Divino, fora e dentro de nós, apercebemo-nos que algo muito maior que a nossa compreensão Humana está em movimento e que não controlamos qualquer resultado, logo tudo o que acontece aconteceria, qualquer que fosse a decisão, como disse temos é de apanhar a matéria dela resultante e moldá-la ao nosso modo de vida, aquele que achamos correto, sempre com Amor, compaixão, respeito e gratidão.

            Por vezes fujo um pouco à responsabilidade das decisões tomadas sem pensar, ignorando que estas realizam um efeito dominó que vai resultar numa consequência, boa ou má, mas nestas também não vem a lição que se calhar devo estar mais atento a tudo o que faço? Em vez de atuar por impulso em busca de um qualquer prazer momentâneo, porque não contar até dez buscar, buscar a melhor atitude a tomar e concretizá-la, juntar todos os fatos em vez de a fazer irracionalmente pensando que é inocente. Como disse, estamos todos interligados e logo essa pequena decisão que parece insignificante pode tomar proporções alarmantes na vida de outros.

            Mesmo que por vezes pense que não fiz nada de errado e que a reação à mesma seja totalmente responsabilidade do outro, na minha visão espiritual assim não é, eu sou corresponsável, nas decisões assim como na criação da realidade que me envolve, mesmo que por vezes pareça que pessoas tóxicas e mal intencionadas pareçam aparecer do nada, é firme convicção que entraram na minha vida devido a qualquer ação por mais pequena e quântica que tenha feito, por isso, eu sou responsável.

            Viver é o um ato complicado por vezes e quando enfrento a mudança, tendo sempre manter-me na minha zona de conforto, mesmo que essa seja dolorosa, ao menos é conhecida, é uma dor há muito conhecida, e por isso às vezes perco muito, porque simplesmente me acomodei e não tive fé em dar um passo no escuro e arriscar, no entanto esta postura é simplesmente colocar mais pedras na mochila que já carrego. É-me mais fácil pensar que nada nunca irá mudar, atenção à perigosidade da palavra nunca no nosso discurso, do que simplesmente tentar viver, se correr mal, certamente tenho de estar disposto com as ferramentas que possuo de tentar tirar ilações positivas de situações más.

            Reaprender a viver depois de um longo período de mal-estar é ainda mais complicado, todas as ideias incutidas e gravadas no cérebro após longos anos de abusos, causa uma confusão mental inexplicável, estou solto das correntes, mas mantenho-me preso como elas ainda me envolvessem.

            No momento chamado agora tenho que entregar, aceitar e confiar no processo e tenho que estar acima de tudo grato por tudo que tenho agora. Sempre com o Amor presente no coração e atuando de acordo com ele, mesmo que haja falhas, há sempre momentos para redenção.

 

Bruno Carvalho

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A LONGA ESTRADA

           


     

    É incrível a resiliência que temos para nos levantar após cada golpe que o passado e pela culpa que nos foi obrigada a ser engolida ao longo dos anos.

            É incrível como se abrirmos mão da nossa pretensa perfeição, possamos ver tão claramente e permitirmo-nos a ser simples humanos, aceitando-nos como somos, agora, neste momento, sem ter de dar nome ou forma aos pensamentos castradores que ouvimos a cada minuto.

            É incrível como um grupo de pessoas que caminha numa estrada consegue reaver uma outra que se perdeu no lamaçal ao lado da mesma, todos numa corrente de mãos dadas, todos sorrindo, mesmo que as nossas lágrimas caiam, são eles que nos dão a força de secar essas lágrimas, acreditar, limpar o pó e seguir em frente, com todo o amor e sem pedir nada em troca.

            É incrível como nos podemos amar como somos, ser pacientes, perdoarmo-nos, experimentar novas experiências apesar de tudo que por muito tempo nos fizeram acreditar.

            A força reside no amor, e o amor por nós próprios é o catalisador para todo o amor que nos rodeia.

            A vida é uma viagem feita por vinte e quatro horas de cada vez, nessas vinte e quatro horas, há minutos, segundos, pequenos momentos de felicidade que por vezes não damos importância, mas são os mais importantes do dia.

            O ego prende-nos com correntes malignas, mas basta sermos um minuto por dia humildes para rebentar com essas correntes e respirarmos a serenidade e harmonia que são a nossa verdadeira natureza.

            Com gratidão por uma mão estendida, sorrimos crentes que o sorriso perante nós é puro e verdadeiro. Porque quem sorri é alguém que caminhou nos nossos sapatos, que também esfolou os joelhos, que chorou à beira da estrada. Tudo o que damos retorna a nós, que seja isso a força motriz para fazer o bem.

            O universo irá recompensar-nos se soubermos esperar e acreditarmos que tudo que tiver que ser nosso será, basta reprogramar a mente, apagar com uma borracha a pretensa insignificância da nossa existência, é altura de abrir os olhos, tudo que nos querem obrigar a fazer basta dizer não!

            E assim, com paciência para as nossas crises existenciais e aceitação de que elas apenas são reais neste momento e não nos definem, caminhemos juntos, a lama das calças irá secar e o esplendor de uma mochila sem rochas irá fazer-nos correr de braços abertos sem nenhum destino, pois já estamos onde queremos estar.

            Que assim seja!

 

Bruno Carvalho

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

IMPERMANÊNCIA

 


Um dia, alegria, riso, amizade, presença. No seguinte, silêncio, tristeza e lágrimas.

            Vivemos num estado de impermanência constante e nem sequer nos damos conta disso.

            Parece que tomamos o futuro como certo e com um facto adquirido e esquecemo-nos que a vida acontece agora, neste momento.

            De que vale todas as invejas, toda a ganância, todo o egoísmo, toda a pressa, quando temos a morte à distância de um suspiro?

            Porque nos queixamos tanto em vez de estar gratos pelo que temos mesmo que seja pouco?

            Porque teimamos em poupar palavras de afeto, de dar abraços, de beijar, de cantar e amar, quando nada nos pertence nesta vida e tudo que foi dado pode ser retirado?

            Não estamos no controlo das coisas e não há problema nenhum, deixemos ir o que não nos faz falta, deixemos todos os momentos mesquinhos que o ego nos impõe e vivamos, aqui e agora, no momento presente que é um presente.

            Que nos vale vivermos constantemente para agradar os outros, negando o que somos, quando o silêncio apaga a alegria de um sorriso?

            Agarramo-nos à matéria como se ela fosse a salvação do espírito e afastamos o espírito sobre a falsa definição de ilusão, quando não é na matéria que reside a salvação, é no que não é tangível.

            Corremos apressadamente atrás de tudo que brilha e não reparamos que estamos a um passo apenas do túmulo.

            Somos um sopro de impermanência, mas na nossa vã loucura julgamo-nos imortais, quando o casulo for levado pela Deusa Mãe só o espírito permanecerá.

            Somos todos impermanentes, por isso tentemos estar mais presentes, por nós, pelos outros pelo mundo.

            O silêncio deu lugar ao silêncio, é tempo de refletir, mas acima de tudo de viver e de estar gratos pelo que temos e somos, agora é o momento!

            Nas asas do espírito abracemos a nossa natureza que somos todos parte de um mesmo todo, a morte relembra-nos da importância do que é mesmo importante, por isso estejamos atentos, sejamos a nossa melhor versão, certamente a Consciência do Mundo notará e se moldará às pequenas transformações interiores.

            E lembremos quem já se foi, que largou o casulo da carne e é agora um espírito, que voa livremente nos dias e nas noites que contemplamos com tanta devoção.

            O momento é agora, nada há mais além deste minuto e deste sopro que nos abraça tão apaixonadamente.

SONHO DE VERÃO

       (imagem gerada por IA) Esperei por ti ao fundo do caminho, entre a casa da encosta e o rio que passava célere e despreocupado, enquan...

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